Dar sem receber...


Mesmo perante os obstáculos inerentes à decisão - profissões que absorvem todas as horas do relógio, o custo elevado das passagens aéreas e o risco de contrair doenças típicas de um país subtropical - há ainda quem encontre tempo e disposição para se dedicar ao voluntariado, associando-se ao Projecto Ser Humano. Foi o caso do Diogo Monteiro, da Andreia Vieira e da Jerusa da Costa.

A vontade de conhecer África e uma nova cultura, a necessidade de se sentir útil e valorizado, ou ainda o desejo de passar umas férias diferentes, terão sido alguns dos motivos que terão levado estes três portugueses a deixar os seu país e a partir rumo a Moçambique, durante o período das férias de Verão.

De áreas profissionais diferentes (economia, gestão e sociologia, respectivamente) estes jovens têm entre 24 e 29 anos, não se conhecem, mas partilham de um mesmo desejo: dedicar parte do seu tempo, dando algo de si, do seu talento e do seu tempo, sem remuneração alguma, à cooperação e solidariedade em prol do bem-estar social.

O Diogo chegou em Junho, e como economista de formação, propôs-se fazer um Estudo de Viabilidade de um Salão de Cabeleireiro na Manhiça (Província de Maputo), há muito desejado e ainda não realizado. Ali passou pouco mais de uma semana a recolher informação indispensável a um estudo desta natureza através de inquéritos realizados nas ruas da vila, visitas a salões de cabeleireiro, levantamento de preços de produtos de beleza, entre outras.

A Andreia aterrou um mês mais tarde no Centro das Irmãs Servas do Cenáculo (Província de Gaza). De entre muitos relatos, ela conta que a aproximação às crianças do Centro foi trabalhosa e gradual - "Para aquelas crianças, um simples beijinho era algo quase desconhecido e a comunicação com elas nem sempre foi fácil, sendo crianças muito tímidas que se expressavam num português pouco perceptível". Não foi por isso que os dias se tornaram mais monótonos. Os variados jogos que trouxe de Portugal assim como as pulseiras que fizeram (com fios de várias cores e missangas de madeira coloridas) e as estrelinhas de papel que usaram para decorar quartos (com recortes de revistas) marcaram as duas semanas vividas intensamente pela Andreia e pelas cerca de 100 crianças que diariamente frequentam este Centro. Conta com carinho que as noites moçambicanas acabavam ao luar, ao som dos mais recentes hits moçambicanos, reproduzidos na aparelhagem que oferecera ao Centro.

A Jerusa chegou no início do presente mês de Agosto e como socióloga que é, respira curiosidade e vontade de fazer. Passa os dias na Casa Madre Maria Clara (em Maputo, cidade) onde chega todos os dias de Chapa (transporte público). Na próxima semana fará um estudo de viabilidade de um Projecto antigo de confecção de fardas escolares e promete deixar a sua marca em tudo aquilo que fizer.

Estes jovens são exemplo do interesse pelo voluntariado, que tem crescido significativamente nos últimos tempos. É fundamental continuar a despertar a consciência social nas pessoas para a inter-ajuda, para o "dar de si". Fica o testemunho sentido da Andreia que arriscou partilhar: "Foi uma experiência verdadeiramente marcante. Guardo o nome, a expressão e o sorriso de  cada criança no meu coração. Aconselho a todos a fazerem voluntariado, é a melhor forma de darmos um pouco de nós ao mundo e de conhecermos este povo maravilhoso!"